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Início do ensaio sobre Machado
1839 — 21 de Junho: Nasce no Morro do Livramento, Rio, Joaquim
Maria Machado de Assis, filho legítimo de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis.
1855 — Machado publica seu primeiro trabalho, a poesia "Ela", tia Marmota Fluminense, onde colaborará até 1861. Um ano mais tarde, entra de aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional, onde ficará até 1858, e onde conhece seu primeiro protetor, Manuel António de Almeida.
1860 — Convidado por Quintino Bocaiúva começa a colaborar no
Diário do Rio de Janeiro, onde fica até 1867.
1863 — Começa a colaborar no Jornal das Famílias, onde publicou diversos contos, até 1878.
1867 — É nomeado ajudante do diretor do Diário Oficial.
1869 — Contratos com o editor B. L. Garner para a publicação (com a venda de direitos autorais) de Contos Fluminenses, Falenas, Ressurreição e Histórias de Meia-Noite. Em 12 de novembro casa- se com D. Carolina Augusta Xavier de Novais.
Residência: Rua dos Andradas.
1873 — Publica em O Novo Mundo, de Nova Iorque, o famoso estudo intitulado "Instinto de Nacionalidade". Nomeado primeiro Oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.
1879 — Começa a colaborar na Revista Brasileira, onde
Escreveu primeiro as Memórias Póstumas de Brás Cubas.
1880 — Participa de um torneio enxadrístico com os seis melhores jogadores do Rio, classificando-se em terceiro lugar. Nomeado Oficial de Gabinete do Ministro da Agricultura, Buarque Macedo.
1882 — Publicação de Papéis Avulsos, contos.
1884 — Publicação de Histórias sem Data, contos. Mudança para a Rua
Cosme Velho, n.° 18, onde permanece até a morte.
1889 — Promovido a Diretor da Diretoria do Comércio, do Ministério da
Agricultura, com o ordenado de oito contos por ano.
1896 — Publicação de Várias Histórias. Fundação da Academia
Brasileira.
1901 — Primeira edição das Poesias Completas.
1902 — Nomeado Diretor-Geral da Contabilidade do Ministério da
Indústria, Viação e Obras Públicas.
1904 — Viagem a Friburgo com Carolina doente. Morte de Carolina em outubro.
1908 — Machado se licencia no Ministério da Viação, para tratamento de saúde. Neste mesmo ano publica Memorial de Aires, seu último livro. E, ainda neste mesmo ano, em setembro, falece Joaquim Maria Machado de Assis, em sua casa própria à Rua Cosme Velho, n.° 18. O atestado de óbito dá ao morto como de "cor branca", apresentando para causa-mortis arteriosclerose.
Os romances de Machado de Assis foram escritos entre 1872 e 1908, estando em 1881 o ponto de Inflexão que separa as duas fases da obra. Terminara no Brasil a guerra do Paraguai, nos Estados Unidos a guerra da Secessão, e na Europa a guerra Franco-Prussiana. Na primeira parte daquele período, o Brasil do segundo reinado desfrutava o otimismo e a tranqüilidade características do apogeu da sociedade liberal; e apesar das inquietações periféricas, produzidas pela questão militar, pela questão religiosa, e pela questão social, que naquele tempo tinha as modestas proporções do abolicionismo, pode-se dizer que o Brasil realizava defasada vinte ou trinta anos em relação à Europa, uma espécie de versão nossa da era vitoriana.
Aproximemos algumas datas: quando Machado escrevia Ressurreição (1872),
Tolstoi escrevia Ana Karenina; Rimbaud, que nos parece tão moderno, publicava Une Saison en Enfer, e Emile Zola prosseguia a publicação da monumental série de romances da escola naturalista, que tanta impressão deixara na obra de Eça de Queirós, e que Machado, com muito bom gosto e muito discernimento, analisa na crítica que fez do Primo Basílio.
No ano em que Machado escreveu Brás Cubas, o mundo europeu, julgando preparar a apoteose do século das luzes, preparava na verdade o fermento que viria liquidar o mundo burguês e fundar um novo século mais profundo e menos confiante em si mesmo. Estão plantadas as sementes do marxismo, está divulgado o evolucionismo, e está em marcha a revolução estética que ao mundo burguês se apresenta como uma loucura coletiva. Poucas épocas terão sido tão inquietas e perturbadas como esse fim de século, e fim de civilização. A sociedade brasileira do segundo reinado, protegida por sua própria pequenez cultural, recebia com muito amortecimento as vibrações que vinham da Europa, e preparava um positivismo local, militar, que seria uma espécie de síntese do racionalismo ocidental. Machado de Assis, homem de muita leitura e muita curiosidade local, acompanhou as duas coisas defasadas, viveu os dois climas espirituais desencontrados, mas não se tornou subserviente nem ao espaço nem ao tempo. Pôs nos romances a cor local e a inquietação do século, contrapondo assim na mesma obra as duas coisas separadas pela história e pela geografia. Viu a Abolição tão desejada; assistiu à mudança de regime com certa indiferença pela República; e veio morrer a poucos passos do princípio do desmoronamento do mundo liberal.
Como homem e cidadão, Machado de Assis é um genuíno representante da sociedade liberal burguesa, e há de ser por isto que insensivelmente, inconscientemente, o trabalho não entra na dinâmica de sua ficção. Seu primeiro cuidado parece ser o de distribuir dotes e heranças, para que seus personagens se movam sem o embaraço da condição servil. Mas depois dessa concessão ao século, ultrapassa os limites do espaço e do tempo, e deixa uma obra que tem a grandeza da universalidade e da intemporalidade, e o sabor da região e da data.
Quando Machado de Assis, em 1872, teve a idéia de escrever seu primeiro romance, Ressurreição, já não era um obscuro autor que diante de um público indiferente, e às vezes hostil, experimenta seus virginais recursos. Aos trinta e três anos, podia considerar-se um autor conceituado e um homem bem servido; tinha público e lar; gozava fama de fidalgo nas letras e ganhava com a pena o que lhe bastava para uma vida discreta e fina. Cinco anos antes fora agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços prestados às letras, e três anos antes casara-se com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, que não lhe deu filhos, mas deu-lhe aquela parte do casamento que costuma ser mais rara: a felicidade longa e tranqüila. Estamos, pois, diante de um homem bem posto no planalto da vida, onde geralmente se estabilizam os valores, e se decidem as promessas afloradas na infância. Digamos logo o termo que se aplica a este Machado de Assis de 1872, condecorado, aplaudido, admirado, e principalmente amado: um homem bem sucedido. Não se vêem nesse vitorioso os sinais de luta árdua, ou as marcas de ressentimento produzido pela origem humilde ou pela mistura de raças. Alguns biógrafos e críticos julgam ter descoberto no tão falado e tão mal compreendido pessimismo machadiano, sinais daqueles ressentimentos; mas a meu ver quem está com a razão é Barreto
Filho, no perfil que nos traça: "Não parece justificada a idéia de ter sido vítima de complexos de inferioridade. Ao contrário, a sua coerência, o seu poder de realização, a sua reserva e distinção inatas, e o modo desenvolto e tranqüilo de ir pelo caminho certo, sem hesitações e sem atritos, mostram a facilidade com que superou as condições desfavoráveis." (Introdução a Machado de Assis, Agir, 1947, pág. 24). Graça Aranha, citado na mesma página por Barreto Filho, diz: "Machado de Assis não revelou nunca esse árduo combate interior, não fez transbordar no ódio e no despeito a sua humildade inicial. Aristocratizou-se silenciosamente." Mais tarde, Joaquim Nabuco falará da beatitude de Machado, e verá nele a serena figura de um papa; o que se vê nos retratos, melhor nos últimos, é uma irradiação que está a pedir o qualificativo de majestosa.
Achamo-nos, pois, em 1872, diante do homem tranqüilo e do bem sucedido escritor. Para o público, e talvez para ele próprio, chegara aonde por aplicação e talento merecia chegar; mas nós, que conhecemos o resto da história, e que levamos sobre os leitores de 1872 a vantagem de descortinar o futuro — futuro que se chama Brás Cubas ou que tem os olhos de ressaca de Capitu — nós bem podemos nos divertir com o colossal engano em que estavam os assinantes do Diário do Rio de Janeiro, ou os importantes emissários da coroa que pregaram na sobrecasaca do festejado autor a estrela de seis pontas, esmaltada bordada a ouro e marcada com a solene divisa: "Amor e Fidelidade". Estavam todos enganados, porque naquela época não existia ainda o que nós hoje chamamos Machado de Assis. E o raro fenômeno não existiria, nem estaríamos aqui a cuidar dele, se a condecoração, a felicidade conjugal e os demais elementos do planalto acima mencionado tivessem firmado o autor nas cômodas posições conquistadas.
Na verdade, a obra machadiana até então realizada tinha qualidades de linguagem, mas pouca densidade de conteúdo. Não hesitaríamos em classificar como medíocre o escritor que nos apresentasse a bagagem com que Machado de Assis conquistou, naqueles tempos fáceis, a estima e a consideração dos contemporâneos. Como disse, não estaríamos aqui a preparar este ensaio, nem existiria talvez nenhum dos livros constantes da "Bibliografia Sobre o Autor", se a obra posterior fosse um mero prolongamento daquela já então publicada. O verdadeiro Machado de Assis, isto é, o autor que não hesitamos em colocar entre os mais altos valores da língua portuguesa, ao lado de Camões e de Fernando Pessoa, e que os leitores do Segunda leitura talvez nem pressentissem, esse, o nosso Machado de Assis, só dez anos mais tarde viria a nascer. E só pôde nascer depois daquele equívoco quê glorificava por antecipação o autor de Dom Casmurro. Salta aos olhos do mais desatento biógrafo a sorte que teve Machado de Assis até os trinta anos, ou a sorte que tivemos nós de tê-lo assim, aos quarenta, desvencilhado dos conflitos superficiais, e, por conseguinte apto a experimentar sondagens mais profundas.
Pode-se dizer que a tranqüilidade conquistada, a estima, a felicidade conjugal são os elementos que vão permitir a Machado de Assis emancipar-se das aflições periféricas e mergulhar nas experiências mais metafísicas do que dramáticas de sua infância. A segurança conseguida realçará em sua alma a fragilidade do mundo criado, a contingência do ser que existe por um fio, a miséria do mundo e do homem. Antes disso, porém, Machado de Assis ainda escreverá os quatro romances de sua primeira fase:
Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá
Garcia (1878).
Continuo ainda essa semana...
Jota Fagner
www.futuca.net