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MODELO DAS RESENHAS DE LIVROS FICHA CATALOGRÁFICA
Fique esperto, Rafael! Este é o terceiro capítulo:
Deve atender às normas catalográficas internacionais de indexação de livros. Não é necessário colocar o sobrenome do autor antes do nome (trata-se de resenha de um só ), nem proceder como se fosse ficha de arquivo ou de biblioteca, que são variáveis.
Autor ou Organizador ( 1.1 )
Como achar os nomes dos autores em bibliotecas:
- Ortega y Gasset;
- Edgar de Bruyne;
- Miguel de Unamuno;
- John Stuart Mills.
Nomes espanhóis: vale o primeiro sobrenome, o do pai.
Nomes holandeses: o de Bruyne é artigo, e não preposição. Equivale ao the inglês, ou ao le francês ( ex.: Le Gros ).
Nomes ingleses: sempre o último.
É indispensável ter um livro de como usar bibliografia. Indico Elementos de Bibliografia, de Antonio Houaiss, ou Du Bon Usage des Bibliographies, de Jeannette Reboul para recorrer quando tiverem dúvidas, ou qualquer outro, já que as normas são internacionais.
Publicações oficiais: procurar o nome da instituição ou país. Ex.: Relatório de Fulano na Secretaria de Cultura de S. Paulo -- procurar primeiro em ²S. Paulo². Código Penal Brasileiro ou Constituição Brasileira: ver ²Brasil( e, depois, ²Congresso Nacional²; em seguida, ²código², ²Constituição², etc.
Obra coletiva: organizador ( abreviação org. ) ou editor ( ed. ). A expressão latina et alii ( abreviação et al. ) indica vários colaboradores. Não precisa colocar o nome dos colaboradores porque a palavra ²organizador ( já supõe que alguém compilou. Numa antologia, é necessário por o nome do organizador. Tudo isso faz parte do aspecto material.
Título da edição utilizada (1.2)
Não é o título da edição original. Todos esses elementos são separados por ponto ou ponto e vírgula.
Dados da edição (1.3)
Compilador, prefaciador, etc ( 1.3.1 )
O compilador é o principal responsável pela reunião de textos heterogêneos. Coloca-se como se
faz com o organizador. Ex.: Ensaios de Sociologia, de Max Weber. Autor: Max Weber. Organizado por Fulano.
Prefácio, apresentação, introdução, notas, índice por Fulano.
Tradutor, se houver. (1.3.2)
Abreviar sempre (trad., org.).
Local (cidade ), Editor, Ano ( 1.3.3 )
Editor: não precisa por ²Indústrias Reunidas S. José Ltda². -- por só S. José. Por o nome comercial e não a razão social.
Local: a cidade.
Ano: se não tiver, colocar s/d ( sem data ) ou por a data da impressão, que se encontra na última página.
Caracteres físicos, etc (1.3.4)
Esse item nem sempre é necessário. In quarto, in octavo: só para obra rara. É obrigatório colocar o número de volumes, se houver mais de um ( ex.: 3 vols. ). Quanto ao número de páginas, é opcional. Na lista de livros que indiquei, o título entre parênteses indica para o leitor que existe uma tradução, mas que não foi essa que li. Fazer outra ficha, se quiser, para o original; aí não precisa colocar o nome do autor.
Como ler o livro? O item 4 ( resumo analítico ), para quem lê, é o primeiro. Suponha que já leu o livro; aí vai se colocar as seguintes questões:
DEFINIÇÃO GERAL (2)
Primeiro, a definição geral do livro. Abrir chave que se refere à importância do livro para o leitor, porém transmitida, não em termos de avaliação segundo seu julgamento crítico, mas segundo a importância objetiva, que se fundamenta em razões ( de 2.1.1 a 2.1.6 ).
Pode ser livro clássico (2.1.1). Ex.: o clássico de Gibbon, History of the Decline and Fall of the Roman Empire, vai ser editado em português pela primeira vez. Se o livro for raro ou inacessível também é motivo de importância objetiva. Se não for o caso, esse item cai fora.
Contribuição nova a um debate importante (2.1.2)
Assim considerado normalmente ou porque você o considera; aí, é necessário justificar. Mas para responder a esse item, você teria que ler muito mais do que o livro referido -- como saber isso se você não acompanha o debate? Para responder a essa questão, você deverá ter uma informação vasta e estar habituado a ler sobre esse assunto. Caso contrário, apele para o consenso da crítica; leia alguns artigos sobre o assunto e consulte bibliografias comentadas. Ex.: Le Vocabulaire de Kant -- o debate é velho, mas a novidade é que pode ser lido como se fosse um dicionário de Kant.
Alguém já fez algo parecido? Procurar nas bibliografias comentadas. A resposta a esse item deve ser fundamentada nos fatos.
Original? Inesperado? (2.1.3)
O livro pode ser por si mesmo, original ou enfocar o assunto de forma inédita, inesperada ou inabitual.
Importa pelo assunto ou pela abordagem? (2.1.4)
Ex.: O Marxismo Ocidental, de José Guilherme Merquior. Quase não há obra de conjunto sobre os autores marxistas ocidentais. O assunto no global é velho, mas o enfoque é novo -- aí é misto. Le Vocabulaire de Kant: o assunto é velho, porém a idéia de fazer um dicionário kantiano é nova. O que tem de interessante é que, apesar de ser um dicionário, pode ser lido como se não o fosse; é misto de dicionário e de introdução a Kant. É portanto original: é novo por ser um dicionário para ser lido e não para ser meramente consultado.
Oportuno para o momento e o leitor? É útil? (2.1.5)
Se atende a alguma demanda, é porque é oportuno. Quanto ao quesito utilidade, não é para você dizer o que gosta e sim se é útil para o público, não para você.
Assunto, matéria (2.2)
Definir o assunto (objeto material), o ponto-de-vista (objeto formal-motivo, 2.3 ) e o objetivo ( objeto formal-terminativo, 2.4 -- uma avaliação crítica ).
Ex.: O Marxismo Ocidental = objeto material; encarado do ponto-de-vista de sua unidade = objeto formal-motivo; avaliação crítica da corrente = objeto formal-terminativo.
Limites auto-impostos pelo autor (2.5)
A amplitude do projeto se é tratado em 1000 páginas ou em 200.
Extensão ( 2.5.1 )
A extensão física como limite. A extensão limitará o tratamento do tema.
Gênero ( 2.5.2 )
No caso do livro de Merquior, é ensaístico. O ensaio oferece uma teoria sugestiva em nível de prova dialética, sem a intenção de prová-la extensivamente; é uma tentativa que precede uma explicação. Quem escreve um ensaio considera que um estudo mais profundo vai comprovar sua tese, da qual dá apenas uma explicação suficiente. Abre um estudo a ser feito pelo autor ou por outros, do tipo: ²essa tese é suficientemente importante para justificar um estudo mais profundo
do tema².
Outros ( 2.5.3 )
Outros limites auto-impostos ( ²tratei do assunto só por este ângulo( ). Esses limites podem estar explícitos. Ver prefácio. Os dois primeiros limites não estão declarados ( extensão e gênero ). É você quem irá declará-los. Os outros estarão declarados pelo autor.
Isso é para vocês verem como foi superficial a leitura que fizeram até hoje e como se passa de uma leitura curiosa para uma leitura científica. Por exemplo, se você vai escrever O Pensamento de Ortega y Gasset, é necessário que você tenha feito todo esse trabalho de resenha com cada livro dele, para chegar às constantes. Esse é o princípio do estudo científico.
A definição geral (2) é um problema interno do livro, apesar de tocar em algumas coisas externas.
CONTEXTO (3)
Trata-se do contexto intelectual onde entra o livro. Vai ser de dois tipos: diacrônico (o que aconteceu antes do livro ser escrito ) e sincrônico ( o quadro contemporâneo ao livro ), 3.1.
O autor (3.1.1)
Avaliar a autoridade do autor, sua formação. Ex.: onde estudou? Fez estudos acadêmicos sobre esse assunto? Com quem aprendeu? Estudou em universidade ou é autodidata? Teve bons amigos que o ensinaram? Fez pós-graduação? Doutoramento? Uma contribuição importante oferecida por alguém sobre o autor pode mudar o quadro das coisas. O local onde estudou indica a atmosfera das idéias captadas pelo autor. A formação serve para legitimar o interesse ou formar
o nível de exigência do leitor. Se o autor estudou em grandes centros, Oxford, Sorbonne, etc, não pode alegar falta de informações. Se veio da Universidade de Zâmbia, não se pode julgá-lo por isso. Ex.: durante a guerra, escrevia-se citando de memória, o que não tira o valor da obra. O autor pode, por modéstia, sonegar informações ( caso de Eduardo Portella ) ou, até, falsificar dados; todos os dois são raros.
Débitos reconhecidos (3.1.1.b)
Verificar se o autor se declara seguidor de alguém. Ex.: quando o autor diz, ²esse livro aplicará o método de G. Luckács ao assunto², significa que está subentendida a obra de Luckács. Isso é importante porque às vezes o autor não foi influenciado por quem pensa e sim por outros. Ex.: no livro de Merquior, ele declara que os autores marxistas são, na verdade, nietzscheanos.
Trabalhos anteriores do autor sobre a mesma matéria ou sobre outras (3.1.1.c)
Esse dado é mais importante do que a formação do autor. Verificar se o autor já publicou outros livros sobre o mesmo assunto. Ex.: Merquior escreveu, anteriormente à publicação de O Marxismo Ocidental, sobre os autores marxistas individualmente. Se publicou, prova que já estudou o assunto. Escreveu o livro em três meses (limitação ); por serem idéias muito condensadas, fica difícil de ler.
A matéria -- Estado da questão (3.1.2 )
É o contexto anterior à obra examinada. Em que ponto estão os debates sobre o tópico? É debate corrente? É terreno virgem? ( 3.1.2.a )
O tema é considerado relevante e por quê? Deveria ser? (Não para você, mas objetivamente) (3.1.2.b). Fazer breve lista apreciativa sobre os trabalhos anteriores (3.1.2.c).
O livro escrito entra em debate já existente.
Contemporâneo -- Quadro dos pontos de vista (3.2)
A escola ou corrente a que se filia pode não coincidir com os débitos reconhecidos. Pode ter sido aluno de alguém sem ter absorvido sua disciplina. Ex.: José Guilherme Merquior foi aluno de Lévi-Strauss, o que não quer dizer que foi discípulo. Merquior é descendente ideológico do filósofo político Raymond Aron. Se o autor não se filia a nenhuma escola, inaugura outra? Há diferença entre o autor e os demais membros da escola? (3.2.1.b)
Polemiza? Com quem? (3.2.2)
Afirma algo ou nega afirmação precendente? Ex.: Merquior polemiza com os autores que examina e com a opinião marxista estabelecida. Um autor pode ser politicamente comunista, mas sua análise não ser marxista ( diferença entre a posição ideológica e a posição intelectual ).
Existem influências intelectuais sub-reptícias, que o indivíduo não percebe e que lhe alteram o olhar? (Trata-se de um problema da sociologia do conhecimento).
Reexplicando o dado escola: não é dado externo, é dado da estruturação interna do livro, isto é, metodologia; não é uma questão tão somente ideológica mas metodológica. Trata-se da posição intelectual: o autor examina esse assunto desde que ponto-de-vista metodológico?
RESUMO ANALÍTICO (4)
(4.1) Enumeração dos grandes blocos em que o autor divide a argumentação. Isso pode coincidir com os títulos dos capítulos ou não. Há quem não saiba capitular ( ex.: obras de Aristóteles ).
Ex.: livro de Merquior:
- 1a etapa: conceito de mundo ocidental e pano de fundo; raízes do mundo ocidental no pensamento de Hegel, Marx e os idealistas alemães;
- 2a etapa: os fundadores do marxismo ocidental;
- 3a etapa: o desenvolvimento do mundo ocidental no pós-guerra;
- 4a etapa: conclusão geral; tese de conjunto.
Devemos buscar a estrutura real do livro, que às vezes não corresponde à nominal.
Desenvolvimento do argumento (4.2)
É resumo do livro inteiro, mediante uma leitura criteriosa onde se sublinha as frases destacadas, de maneira a formar frases contínuas, emendando-as. Nunca sublinhar palavras isoladas e sim frases, de modo que, se alguém copiar, encontre um texto com começo, meio e fim -- aí não se tem de redigir o resumo. Ao datilografar, fazer o resumo do resumo (v. texto de retórica).
Quando você estica e comprime o texto de várias maneiras, aí saberá a estrutura interna do livro.
Quando tiver o contexto inteiro, então terá matado a charada.
Síntese final (5)
Deve ter uma página, = definição geral + contexto + resumo analítico. É a síntese de tudo o que você falou, não do livro. É a conclusão final do livro à luz de seu contexto e da definição dada anteriormente (objeto material, formal-motivo, formal-terminativo). Uma vez lido o livro, verifique se o autor falou do assunto, se o fez do ponto-de-vista que havia declarado e se atingiu o seu objetivo. A resenha informativa pára nesse ponto. Uma boa resenha substitui o livro.
Ao fazer o resumo analítico, distinguir o que é citação literal e o que é paráfrase (frase de sua autoria que resume o pensamento de outro ).
Aspas: as aspas só entram depois do ponto, quando há citação de frase inteira. Se for pedaço de frase, as aspas vêm antes do ponto.
Em inglês, as aspas vêm depois do ponto --.²
Em português, as aspas vêm antes do ponto -- ².
O grifo é usado em:
- título do livro ( nunca aspeado );
- palavras estrangeiras;
- conceitos que se deseja destacar.
O grifo ou itálico equivale ao sublinhado uma vez. O negrito equivale ao sublinhado duas vezes. O negrito e itálico equivalem ao sublinhado três vezes.
As aspas são usadas para:
1) citar frases alheias;
2) atenuar um conceito, para indicar que aquilo não está sendo falado no sentido reto, mas no oblíquo;
3) indicar um conceito sobre o qual não se quer assumir responsabilidade, que não se endossa totalmente. As aspas servem como uma atenuante ou para indicar que a idéia não é totalmente sua.
Citação de trecho inteira do texto: fazer coluna menor e mudar o espaço ( de espaço 2 para 1 ).
Não usar aspas.
Cada tipo de letra (família) tem quatro tipos:
- redondo;
- negrito (escura);
- grifo ou itálico ( inclinada );
- grifo negrito ( inclinada escura ).
Quando fechar cada citação, citar a página ( cuja abreviação é p. e não pag. ).
Plural majestático: (ex.: ²na nossa opinião...( ). Justifica-se se você fala em nome do cargo ou enquanto autoridade pessoal ou coletiva. É deselegante quando o indivíduo se intitula no plural: eu sou eu.
Impessoal: evitem essa construção, que contraria o espírito da língua portuguesa ( existe em francês e inglês - on, one ; saiu do latim homo, era usada no português arcaico e depois se perdeu ).
O pronome se nada tem a ver com essa idéia, traduzida pela expressão a gente. O nós impessoal tem que ser o nós sem pronome. Ex.: ²vivemos tomando decisões apressadas². Quando utilizar o impessoal, moderação no uso do se. Não começar frases com a expressão torna-se necessário; só se usa essa expressão como conseqüência de outra coisa anterior; usar é necessário. Leiam os que sabem escrever português: Graciliano Ramos e Machado de Assis.
Sempre que escrevemos, tropeçamos em dificuldades. Não forcem a língua; adaptem-se à pobreza de sua língua. Todas as línguas são pobres nas construções de que dispõem. O melhor é forçar a vocês mesmos em vez de usar o recurso fácil de forçar a língua. No francês, quase todas as palavras são oxítonas. No espanhol e no português, não -- a frase sobe e desce. O português, apesar de mal usado, é uma das melhores línguas para a filosofia. Na USP, os professores imitam o francês e fica pedante. Em filosofia, não temos que imitar -- Mário Ferreira dos Santos era péssimo escritor.
Quando escrever algo, leia em voz alta e verifique, com sua imaginação, como soaria aos ouvidos do outro. Deve haver uma tradução do pensado ao escrito. A tradução direta é muito difícil; é preciso muito prática. Pensar primeiro e depois traduzir para o português. Preste atenção quando ler em diferentes línguas. É a maior estupidez quando se diz, ²escreva como pensa². Pense primeiro e depois traduza o que você pensou para o português. Que português? O de Graciliano e Machado e também o de José Geraldo Vieira, que é o contrário de Graciliano, mas é o segundo melhor escritor brasileiro do século -- é muito chato, só os professores o lêem. Isso vai inaugurar
uma nova etapa no curso -- são recursos para você adquirir certeza pessoal. Quem não a obtiver, será um eterno escravo da opinião alheia. Somente aquele que investiga, coloca dúvidas e as resolve, se liberta. Para obter autonomia, não basta a reivindicação -- tem de haver força. Isso deve ser conquistado, já que ninguém lhe dará de presente -- dará, no máximo, o que eu estou lhe dando.
Jota Fagner
www.futuca.net